quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Apanhador de Almas II

A cada dia, cedia humildemente aos conhecimentos de sua nova forma. Sabia que sua morte, surgira com surpresa. Tanto a si, quanto a todos que o rodeavam em vida.

Com a aceitação de suas falhas, se viu em um labirinto. Aceitara seu destino, mas achara injusto saber que formas ocultas agem por ocasião, levando até a fatalidades.

Soube que em vida, existiam empenhas que provocaram diversos fatos que o bloqueou e em diversas ocasiões houve não somente seus pensamentos, mas sopros que o rumavam a outro caminho. Causa de um acontecimento que ele mesmo provocara em uma de suas existências. Entendia que era o causador de diversos problemas que enfrentou em vida, mas, sem questionar tinha o pensamento de mudar todo o rumo daquilo.

Sua morte ocorrera no ano de 1912. Passara por muito até os tempos atuais.

Por anos, estudou tudo que lhe era preciso. Energização, materialização, incorporação entre níveis de pensamentos entre outros. Estudava dias e noites a fio, sem cansaço. Seus mentores já sabiam de sua verdadeira vontade e com afago, tentavam dissuadi-lo de tais ideias.

Sua jornada começara a partir dali, não tinha mais porque esperar!

- Sebastian, você vai partir e deixar pra trás tudo que aprendeu?

- Não Joé, o que aprendi vou lavar comigo e nesta marcha irei só.

- Você é dono de seus atos, e sabes que responderas por eles. Dizia Joé, preocupado com os ações de seu amigo.

-Não só eu, Joé. Muitos responderão!

Virando-se, como em um piscar de olhos, Sebastian deixa a quilômetros de distancia Joé. Sebastian carregava algo em seu olhar, Muitos temiam pelos seus atos. Sebastian mudaria dali para frente, todos os sentidos, dimensões e forma de pensar. Dali para frente ele seria conhecido como “O apanhador de almas”.

Continua na próxima semana...

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Apanhador de Almas

Sim, ele morrera. Isso não era novidade. O estranho era que a morte não era o fim da estrada, agora perplexo, exigia de sua percepção o que havia depois dali, onde se encontrava.

Sentia que o fim era o fim, mas não saberia a que passo decorreria depois daquela barreira que julgara. Em vida, sempre buscou conhecimento, mas nunca achou tanta verdade no que lia.

Olhava o cinza, era tudo tão desconexo, tão escuro, sentia um fardo enorme em suas costas, o peso que, agora diria: O peso da alma!

Estava perdido no tempo que estivera por ali e sempre ao longe avistava uma luz, tão distante que nem merecia o alcance. Atravessar todo aquele cinza, aquele alvoroço, toda aquela dor pra quem sabe, enxergar apenas uma simples luz. E apenas luz, era a ultima coisa que queria ver.

A dor em seu peito exigia uma força descomunal para caminhar, a sede, a fome era maior do que sentira em qualquer época de sua vida. Vida, palavra que agora ganhava um sentido diferente, achava uma graça que embargava em sua garganta, mesmo sendo, o que seria vida agora?

Olhando ao lado, ouvira apenas gritos, sua visão era turva. Sentia um cheiro que não conseguia descrever. Um misto de enxofre, achou que era intuitivo falar de enxofre, pois sempre que recordava, ouvia esta palavra quando descreviam um cheiro diferente. Sentia medo, muito medo.

Em vida, sua percepção para novas conquistas, novos desafios era o que tinha de melhor e sempre obteve êxitos consagráveis, mas ali era diferente e sentia todo aquele peso. Compreendia o que suas duvidas nunca o respondera, ele sabia que tinha que passar por ali, mas não sabia o motivo. Qual seria seu objetivo? O que aquelas outras almas queriam?

Os dias passavam lentos em sua mente. Certa vez viu-se encurralado por alguns, queriam suga-lo, retirar de si aquela energia que trazia e com isso sentia-se exausto. Que formas eram aquelas, o que seria aquilo. Olhou para o horizonte e se perguntou:

-Por quê? - Desmaiou, sentiu suas forças extraídas com ferocidade e não resistiu ao chão.

Dias e dias se passaram, e ele sentia-se abandonado, largara de sua vida para passar aquilo. E se fosse só aquilo, apenas isso? Duvidas surgiam em sua mente e ele se abateu profundamente. Enxergava tal luz, mas a necessidade do esforço sempre o fazia desanimar.

Certo dia em meio ao cinza, sentiu necessidade de esforçar-se, sua visão já não tão lograda, distinguia às vezes seres jamais imagináveis, sentia medo quando os via. Queriam escraviza-lo, doma-lo. Com o tempo e por sua perspicácia, viu que eram como ele, ou já foram um dia, sentiu que poderia ser o que quisesse bastava buscar conhecimento. Mas não queria nunca, igualar-se a eles.

Determinada ocasião, olhando tal luz que aparecera de súbito, avistou pessoas que nunca conseguira enxergar antes, sua visão desde então parecia limitada, mas agora, naquele dia tudo se tornara diferente. Viu olhares de amizade e paz que se aproximaram dele.

O que seria? Pensava ele, tal força o fez ir de encontro ao chão.

- Sebastian, acorde!

Ouvia de longe a voz de comando e nem por curiosidade vencia seu cansaço.

- Vamos meu jovem, está na hora de aprender como curar-se, abasta aceitar nossa ajuda. Você já sofreu demais, não seria agora a hora?

Sebastian se deixou levar, e com uma gota de energia que lhe restava, disse com dificuldade, sim.

Após o que avaliara dias, acordou e com uma disposição maior, olhando ao seu redor sentiu um frio, um arrepio. Parecia um hospital, mas nada comparado ao que conhecia em Terra.

- Olá Sebastian, como se sente? – Disse Joé, um senhor de barba rala com fisionomia pacificadora.

- Bem, obrigado. Que lugar é esse?

- Este é o começo de sua nova jornada, e partindo daqui você pode buscar a paz e seria melhor lhe dizer que busque apenas por paz e amor. Meu nome é Joé e eu serei seu companheiro nesta jornada.

- Onde estou quem são essas pessoas? Como me tiraram daquele lugar horrível?

-Calma Sebastian, tente descansar!

Sebastian, sabia que suas perguntas não seriam sanadas naquele momento, e quanto mais duvidas e angustias enviara a seu coração, mais sentia o fardo que o amedrontava.

Olhou ao redor, sentia a paz, a luz, mas nada era o que conhecia. Teve paciência de esperar, sabia que agora sua busca por conhecimento era renovada, pois ali tudo era diferente. Serrou seus olhos e procurou descansar, ainda sentia-se fraco.

Os dias se passaram, e Sebastian melhorava a cada dia, Joé o chamou para uma caminhada, disse que lhe faria bem. Aquele era o momento que aguardava, pois a curiosidade chegava a sufocar lhe.

Olhando deslumbrado a cada detalhe, admirou-se com sua nova morada. E era ali que começaria seu novo objetivo. Se julgando capaz, saberia exatamente o que fazer pelo que passou naquele lugar sombrio.

Continua...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cemitério das Patys

Enterradas por Ciro M. Costa



Lá não tem dinheiro
Não tem ouro ou iates
Não tem rico fazendeiro
Lá é o Cemitério das Patys

O que acontece com uma Paty
Quando ela envelhece?
Arruma emprego? Vai para o abate?
Morre. E enterrada onde ela merece!

Túmulos enfeitados
Com diamantes de 18 quilates
Velas de ouro floreado
Isto é o Cemitério das Patys

O cemitério é muito luxuoso
Cobram caro na entrada
Homem só entra estiloso
E mulher de roupa dourada

Música emo e muita animação
Um poodle mimado que late
Caviar, whisky e camarão
Assim lá é o velório de Paty

Na madrugada tem mistério
As mortas se levantam faceiras
E nesse chique cemitério
Ouve-se o chacoalhar de pulseiras

Nessa balada misteriosa
Ouve-se mp3 pop também
Tem até celular cor-de-rosa
Trocando idéia com o além

E você? Já viste?
Pobres dizem disparates
Mas não importa, ele existe
O enigmático Cemitério das Patys

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Diário de Ciro - página 1.504

Das páginas de Ciro M. Costa

Quarta-feira. Dia. Assim que terminei de dar mais uma aula de Legislação de Trânsito (pela milionésima vez, expliquei aos alunos todo o processo de habilitação) voltei para meu carro, e percebi que o mesmo estava com o porta-malas destrancado. Percebi também que ele estava assim desde sábado. “Alguém poderia ter aberto e roubado algo aqui dentro!”, pensei.
É engraçado o estágio em que chegamos. Quase todos os dias, precisamos tomar cuidado para não sermos roubados. Seja um carro que está estacionado em local suspeito, seja aquela bolsa que ficou em cima da mesa, seja o celular que está ali em cima, seja a bicicleta que ficou trancada lá fora... arrisco a dizer que tomamos precauções na maior parte do tempo. Por quê? Por que o mundo já não é mais o mesmo, há muito tempo.
Pra quem não sabe, fui roubado há pouco mais de um ano. Tinha um bom tocador de Mp3 em meu carro, com vários CDs (90% deles de rock e heavy metal). Uma bela noite, um filho de uma mãe e um pai, entortou minha porta do passageiro, abriu o pino e levou tudo. O cara foi tão descuidado, que se machucou na porta e um fiapo de cabelo do braço ficou lá. Se tivéssemos C.S.I por aqui, ele estaria em apuros. Me pergunto até hoje o porquê de ter levado meus CDs. O som eu entendo... mas os CDs??? Eram todos gravados e, cá entre nós, ladrão não costuma gostar desse tipo de música!? Se fosse sertanejo, axé ou funk eu até entenderia...
Bem, o caso é que depois disso, adaptei um amplificador no carro, onde eu apenas encaixava meu mp4 quando quisesse. Era simples e um pouco mais seguro, já que o amplificador ficava bem escondido e eu não deixava o mp4 dentro do carro.
Mas a gente não é inteligente todos os dias. A gente esquece dos traumas. A gente facilita. A gente relaxa. Nessa última quarta-feira, deixei meu carro nos arredores da faculdade, à noite (porque a burocracia me ‘descadastrou’ do estacionamento do lugar), e o arrombaram novamente (da mesma forma da outra vez) e levaram meu mp4 e meu amplificador. Quando entrei e vi tudo revirado, não sabia se chorava ou se ficava puto. Acho que estava mais pra última opção. “Por que fui deixar isso aqui dentro?? Por que deixei o carro nesse lugar escuro?? Por que não vi pessoa arrombar? Por que a gente nunca pega no flagra?? Por que fui tão burro??? Por que?? Por que???”.
Fiquei pensando nisso, enquanto voltava pra casa, e o arrependimento hoje ainda é forte. Entro em meu carro e o silêncio do caminho até o trabalho é insuportável. Não vivo mais sem aquela música...
Vocês podem estar pensando agora: “Tá, roubaram você, Ciro. E daí? Isso acontece todos os dias! O que há de interessante na sua historinha de hoje??”. Pois aí é que está o ponto, pessoal. A coisa se tornou rotina. Não nos surpreendemos mais quando uma história de roubo é contada, pois já não é mais novidade. TODO MUNDO já foi roubado um dia. E é isso que me assusta. É uma coisa muito errada, e continuamos de braços cruzados. Estamos muito conformados com tudo isso. A gente rala, passa apertado, é honesto... para vir um filho de P e levar na facilidade? “Por que você não coloca um alarme no carro?”, vocês me perguntam. Claro, como se adiantasse.
Penso eu que está na hora do mundo dar um BASTA. Se nós, pessoas de bem, nos uníssemos, isso dificilmente aconteceria. Se vigiássemos mais uns aos outros... ah, como seria diferente! Somos a maioria, pessoal, podem acreditar. Talvez seja hora de começar a observar tudo ao redor, e se virmos algo suspeito, acionar outras pessoas de bem (porque com a polícia também não se pode contar sempre). Talvez possamos usar a tecnologia de hoje, para sair avisando que “alguém está roubando um carro na rua tal” ou “alguém está com atitude suspeita na sua vizinhança, fiquem atentos!”. Sempre tem alguém com um notebook por perto, então... por que não? E o celular então? Já pensaram no poder que ele tem?
Outro dia, um de meus grandes amigos, o Flávio (que por acaso mora uma rua de cima de minha casa) me ligou, dizendo que seu alarme havia disparado. Infelizmente, não pude ir verificar a casa, pois estava em outro bairro, muito longe. Mas, segundo fiquei sabendo depois, ele ligou pra mim, pra polícia, pro irmão... e eles chegaram a tempo de ver que fora apenas um alarme falso. Graças ao bom Deus. Temos aqui uma espécie de ‘acordo’, onde nos observamos sempre. Sempre que há algo de errado em nossas casas, avisamos um ao outro. Seja um barulho diferente, se escutamos, o celular é usado.
Vocês percebem como a comunicação e a união são fortes? Se fizermos isso sempre, imagine a cara do ladrão, quando chegar aquele tanto de pessoas e pegá-lo no flagra! O que ele vai fazer? Se vingar de cada um? Com essa união? Muito difícil! Eu disse: somos a maioria.
E volto a dizer que o notebook e o celular são poderosas armas para combater o crime hoje. Isso, se não roubarem eles de você...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

MENINA DAS ÁRVORES - PARTE FINAL

Por Ciro M. Costa

Bem, é engraçado estar aqui, no final das contas. Depois de tudo o que passei, assim como tudo, deveria, claro, haver um fim.
Minha jornada foi longa. Para quem leu essa história pode ter parecido tudo um piscar de olhos. Os fatos pareciam acontecer muito rapidamente... mas, acreditem, para mim foi uma eternidade. E essa eternidade ainda não acabou, como toda eternidade tem que ser.
Pra mim, na verdade, fora tudo um aprendizado. Claro! Que tragédia em nossas vidas que não é? Você está num bom momento, cuidando de sua vida, sua rotina... e, de repente, as coisas ruins começam a acontecer. Então você tem que se desviar do caminho, e é aí onde aprende coisas novas sobre a vida. Ou a morte.
- Quem é você?
- Eu já lhe disse. Meu nome é Alice.
- Você... você existe mesmo?
- É difícil explicar.
Muitas pessoas dizem que Deus nos envia uma espécie de 'ajuda' nos momentos mais difíceis. Será isso verdade? Será que nós mesmos não somos capazes de pedir uma ajuda especial, mesmo inconscientemente? Por que tantas pessoas aparecem em nossa vida, e depois desaparecem para sempre? Pare pra pensar. Talvez elas nunca tivessem estado ali.
- Quero tocar você.
- Você não pode, Joshua.
- Por que???
- Não sou quem você pensa.
Mas mesmo que você não acredite em Deus, saiba que há uma força por trás de tudo. Seja de você ou de algo do 'além', ela vem até você. Você pode não aceitar, mas ela estará lá e, de alguma forma irá te ajudar. Ou te atrapalhar. Ou estará lá apenas para te confundir. Por que?
- Estou apaixonado por você, Alice.
- Então, escreva.
- Hein?
- Escreva sobre mim. Há séculos escrevem sobre mim, seja em histórias ou em canções. Faça sua parte, e me darei por satisfeita.
- Mas o qu...
- Escreva o que quiser.
Jamais viram Alice na árvore comigo. Muitos afirmam ter-me visto sozinho, lá em cima.
Não. Alice não foi fruto de minha imaginação. Tampouco fora um sonho. Alice não era um espírito de uma garota que veio me visitar. Não sou médium e nunca fui esquizofrênico. Quem ou quê era Alice então?
- Quero que seja feliz, Joshua.
- Isso é uma despedida?
- Sim. Você não me verá nunca mais, mesmo em outra vida. Eu disse que estaria aqui enquanto você precisasse, e esse tempo já passou. Agora é hora de você seguir seu caminho, e eu o meu. Se é que existe um caminho pra mim.
Assim como eu, você pode querer se perguntar várias vezes quem era a 'menina das ávores', mas jamais irá conseguir. Imagine: se Deus criou o mundo, então... quem criou Deus? Você vai penetrar nesse pensamento profundo, e por mais que se esforce, jamais irá encontrar uma explicação lógica. É apenas um exemplo.
Assim é com Alice. É preciso aceitar que estamos nesse mundo sem precisar saber de tudo. Pra tudo há uma explicação, mas nossas mentes estão limitadas. E é se aproveitando disso, que criaturas como Alice aparecem em nossas vidas.
Alice se alimentou dos mistérios que a rondaram. E depois de satisfeita, ela simplesmente foi embora, como tem feito há muito tempo...
- Você não pode me abandonar...
- E você não pode dizer o que se pode fazer, Joshua.
Muitos de nós querem fugir de seus problemas. Vamos para um lugar sossegado para pensar na vida e curtir um pouco de nós mesmos. Alguns sobem em árvores.
- Essa árvores te trouxe bons momentos, Joshua?
- Os melhores de minha vida.
- Então, não deixe de vir. Suba aqui quando puder, assim como fez no primeiro dia. Converse com ela, assim como fez todo esse tempo. Acredite, a árvore gosta de você. Ela me disse que pode pegar seus frutos sempre que precisar.
- Alice, eu...
- Tome, Joshua bobo!
Naquele dia, Alice me jogou uma bela goiaba. Mas quando peguei a fruta no ar, a menina das árvores havia desaparecido. Desapareceu, como se jamais houvesse aparecido...
Hoje encerro a história que Alice me pediu. Não sei se os autores antigos escreveram algo verídico sobre ela. Vai saber de que forma ela apareceu para eles, ou o que lhes disse. Não me importa mais. Achei que Alice fosse uma exclusividade minha. Um presente do "outro lado" para Joshua. Mas não fora nada disso. Fora apenas 'algo' que apareceu e que já havia aparecido.
"E então Joshua morreu um dia, e para sempre estava naquela árvore, rindo e conversando com Alice, a sua menina das árvores". Era esse o final que esperavam? Sinto desapontá-los. Também estou desapontado.
E todos nós aprendemos uma lição.
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Nota do autor: essa história foi encontrada debaixo de uma árvore, na década de 80. Segundo as histórias da cidade local, uma moça dizia insistentemente que havia encontrado um belo rapaz em uma árvore, e que havia se apaixonado por ele. Mas ninguém nunca conseguiu vê-lo. Decepcionada com seu desaparecimento, a moça escreveu essa história, e não se sabe até hoje se esse rapaz, chamado Joshua, realmente existiu.
O que se percebe é que a autora (que se chamava Alice) escreveu tudo, apenas invertendo os papéis.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MENINA DAS ÁRVORES - PARTE VIII

Por Ciro M. Costa



Por um momento, pensei que aqueles dois estavam ali me encurralando para acabar comigo. Mas descartei esse pensamento no mesmo instante. Aquilo não era nenhum tipo de filme, seria ridículo demais fazerem isso. Ou não?
Ainda sorrindo e me encarando, Lucíola tirou um canivete do bolso, e rasgou um dos sacos de ração pra cachorro.
- Isso vai dar trabalho pra limpar depois... – eu disse, querendo parecer tranqüilo.
- Não tem problema. – ela disse. – Somos eu e Alberto quem vamos limpar a bagunça, assim que formos os donos desse armazém.
- Estou me sentindo em uma novela das nove agora. Você sabe que os vilões nunca vencem, não é?
- O único vilão aqui é você, moleque! Nunca deu duro na vida como eu e Alberto para o seu pai. Sempre fomos empregados fiéis a ele e deveríamos ter herdado 100% deste lugar!
- “Deveríamos”?? Que eu saiba, foi somente você quem recebeu uma parte desse lugar. Alberto não ficou com nada. Estou enganado, amigo?
- Não sou seu amigo. – disse Alberto, secamente.
- Talvez não hoje, mas já foi um dia. Um dia desses, antes de Lucíola aparecer em nossas vidas.
- Eu era seu amigo somente para agradar seu pai...
- Talvez, Alberto. Ou talvez você esteja apaixonado por essa daí e, sem querer, acabou virando o cachorrinho dela.
Súbito, Alberto pulou em cima de mim e agarrou meu pescoço. Idiotice a minha ter dito tal coisa, ele era bem mais forte que eu, e poderia me matar ali mesmo.
- O que foi que disse, moleque???
- Alberto... está... me machucando, cara...
- Por é que você não é como seu pai, hã? Por que é que tem que ser assim? Por que não foi legal com a gente?
- E-eu? O... que foi que... eu fiz??!?
Comecei a engasgar, então Alberto me soltou. Olhou para Lucíola, e esta continuava sorrindo, sem falar nada. Ele me olhou de novo, enquanto eu mal conseguia ficar de pé. Tive a impressão de que ele esperava que Lucíola o impedisse de algo.
Deve ter ficado um pouco decepcionado.
- Isso está errado. – ele disse. – O que estamos fazendo, Lucíola?
- Eu não fiz nada. – ela respondeu.
- Não fez? Que droga, você me obrigou a isso!
- Eu não obriguei ninguém. Você está fazendo tudo por conta própria.
- Eu pensei que o rapaz fosse nosso inimigo aqui dentro... mas ele tem razão! O que foi que ele nos fez? Eu gostava dele! Gostava de conversar com ele nesse depósito! Deus, pela primeira vez na vida, pensava comigo: “achei um lugar onde os patrões são pessoas boas!”. Então... tudo mudou quando você chegou! Você me pôs contra o garoto... e no final acabou ficando com metade do armazém!! Que idiota eu sou??
- Oras, pensou que sendo amigo desse imbecil conseguiria ficar com algo?
- Não!!! Nunca me interessei em ficar com nada disso aqui!! Eu era feliz! Tinha um grande amigo... e você estragou tudo para conseguir o que queria!!! Você não vale nada, sua...
- Olha a boca, Alberto! Não diga nada do que irá se arrepender.
- Você é uma vadia, Lucíola!! – dito isso, Alberto me estendeu sua mão. – Ei, Joshua, levante-se. Vamos embora daqui.
Ainda meio atordoado, peguei em sua mão.
- O que está fazendo?? Ainda não terminei minha conversa!! Mudando de lado, não me impedirá de conseguir...
- Eu sei o que você quer, Lucíola. – eu disse. – Vou conversar com o advogado amanhã de manhã e doar minha parte para você. Se quer tanto esse armazém, que fique com ele. Você tem razão, sempre deu mais duro aqui do que eu. Merece ficar com ele.
- E eu estou me demitindo! – disse Alberto, encarando-a.
Lucíola perdeu seu sorriso. Nunca soube se naquele momento ela estava arrependida, ou se estava excessivamente satisfeita com minha decisão, pois nunca mais a vi em minha vida.
Quando estávamos do lado de fora, Alberto, com lágrimas nos olhos, me disse:
- Ei, amigo, desculpe por tudo. Eu não quis dizer aquilo.
- Não se preocupe, Alberto. Sei como são as coisas. – e fui sincero. De certa forma, já o havia perdoado bem antes.
- Não, Joshua. Quero que realmente me perdoe por tudo. Eu fui um tolo, e você sempre foi um bom rapaz. Seu pai o obrigava a ficar aqui contra sua vontade, mas sempre percebi que você tinha capacidade de arrumar coisa melhor, ao contrário de mim.
- Percebi isso hoje, Alberto. Mas você também tem capacidade para coisas maiores. Tem bom coração, amigo. Só não se deixe mais levar pela ambição dos outros.
- Não, aprendi minha lição. Vou voltar pra minha cidade natal e recomeçar minha vida.
Naquela tarde, eu e Alberto ainda fomos para uma lanchonete e conversamos ainda mais um bocado. Quem nos visse ali, rindo daquele jeito, nem imaginaria que mais cedo ele estava com suas mãos em meu pescoço, tentando me matar.
- Gostaria de ver a cara de Lucíola agora. – ele disse. – Com certeza, ainda está naquele armazém, paralisada! Hahahahhahahaha!!!
- Hahahahahhahahah!! Pois é, imagine você se ela...
Então, pela janela, eu a vi.
Alice.
Pedi licença a Alberto, dizendo que precisava resolver um assunto urgente. Ele não se importou e ainda pagou a conta.
- Esse foi o nosso “lanche do perdão”, certo? – ele disse, e piscou um olho.
Quando cheguei do lado de fora, Alice não estava mais lá.
Mas de alguma forma, eu sabia onde ela estava. E era pra lá que iria.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

MENINA DAS ÁRVORES (intervalo)

Olá leitores e leitoras. Eu sou Alice, a menina das ávores.

Sinto informar, mas hoje não teremos o oitavo capítulo desta saga. Infelizmente, a continuação só virá na semana que vem, dia 07/01/2011.


Espero que todos compreendam.


Obrigada!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MENINA DAS ÁRVORES - PARTE VII

Por Ciro M. Costa


É desnecessário dizer que aquele foi o pior final de ano de minha vida. Três semanas após a morte de meu pai e minha mãe, lá estava eu, tentando decidir com meu advogado e meus inimigos, quem, afinal, ficaria com o armazém de meu pai.
Na verdade, não me interessava nenhum pouco ficar com aquele armazém. Por mim, dava ele pra qualquer um. Mas não podia aceitar a idéia daquilo tudo ficar com Lucíola e Alberto. Talvez para Alberto, se não tivesse virado um cachorro mandado idiota.
Durante a leitura do testamento, os dois ficavam me encarando constantemente. Com certeza, se tivessem os poderes do Super-Homem naquele momento, eu já teria morrido queimado há muito tempo...
- ... a casa, o carro e um terreno na Rua Santa Geórgia ficarão com seu único filho, Joshua Peres. – dizia o advogado. – Quanto ao armazém, era desejo do Sr. Peres que ele ficasse...
Neste momento, os olhos de Lucíola pareceram querer saltar das órbitas, de tanta ansiedade.
- ... 50% para Joshua Peres... e 50% para sua dedicada empregada, Lucíola Tavares.
- Não!! Não pode ser!! Como meu pai...
- O Sr. Peres entendia que Lucíola, como bom tempo sendo sua funcionária, tinha direito a metade do armazém, Sr. Joshua.
- Não achou justo, Joshua? – perguntou Lucíola.
- Não, eu não achei, sua aproveitadora de uma...
- Acho melhor nos acalmarmos! – disse meu advogado, me puxando para um canto. – Você já ficou com a casa, o carro e o terreno! Para quê queria também 100% do armazém de que você nem gosta??
- Você não entende, Dr. Saul!! Lucíola não merecia 1% sequer daquele lugar! Meu pai deveria estar ‘de rolo’ com essa mulher, só pode!
- Isso é algo desagradável para se dizer, Sr. Joshua.
- É que estou furioso!!!
- Então, sugiro que venda sua parte para essa mulher. Ou aprenda a conviver com ela no mesmo local de trabalho.
Dr. Saul não sabia realmente o que estava falando. As pessoas vivem nos dizendo isso de “tem que aturar”, “tem que ter paciência com seu inimigo”... mas só quando a situação não é com elas! Eu conhecia Lucíola. Ela faria de tudo para ficar com o armazém só para ela. E duvido muito que ela quisesse comprar minha parte. Com certeza, ela daria outro jeito nisso...
Saí daquele lugar pensativo. Do lado de fora, vi Lucíola comentar com Alberto que comemorariam naquela noite. Pareciam satisfeitos, mesmo ela tendo levado só a metade.
- Vamos ver se leva as coisas um pouco a sério agora, molengão! – disse-me Alberto, com cara de poucos amigos, e Lucíola riu.
Ignorei aquilo, apesar da imensa vontade de revidar.
Para completar minha infelicidade às vésperas daquele natal, Alice havia sumido. Todos os dias eu estava lá, naquele mesmo parque, esperando por ela, e nada. O que afinal, havia acontecido? Depois daquele dia e de sua reação estranha, eu não podia deixar de ficar pensativo. Por que é que tudo estava dando errado na minha vida?? Será que, de alguma forma, Alice estava ligada a tudo isso? Não, impossível! Uma moça tão bela e de tez tão agradável, jamais poderia trazer desgraças a um homem! Tudo não passava de coincidência. Triste coincidência...

Na segunda-feira, depois do final de semana de natal, levantei-me bem cedo e fui até o armazém. Era preciso começar a colocar as coisas e ordem e ver como ficariam as minhas funções e do “casalzinho do inferno”.
Quando cheguei lá, Lucíola e Alberto já estavam trabalhando.
- Até que enfim, chegou, rapazinho. – disse ela, cínica. – Alberto está precisando de ajuda no depósito.
Com vontade de rir, respondi:
- E quem disse que vim para trabalhar no depósito?
- Eu estou dizendo, Joshua. Você sabe que minha função aqui é a mais importante e...
- Sua função é a mesma porcaria de sempre, minha amiga. Só que agora, cada um de nós faz metade dela. Só precisamos entrar em um acordo, como quem faz o quê.
- Eu não preciso de ninguém fazendo metade do meu trabalho. Além disso seu pai dizia...
- Meu pai está há sete palmos de terra abaixo agora, senhorita. E, antes de ir pra lá, ele deixou metade disso daqui pra mim. Portanto, você não manda mais ou menos que eu.
Parecendo prever que uma discussão estava por vir, Alberto apareceu:
- O molengão tá te respondendo aí, Lucíola?
- É o que parece, Alberto. Ele não quer aceitar o lugar dele, como sempre.
Virei as costas e fui para o lugar onde era o escritório de meu pai. Ali fiquei durante toda a semana, tentando achar algo pra fazer (verificar papéis e notas em pendência, documentos que não eram mais necessários, etc). Ao mesmo tempo, eu discutia com Alberto e Lucíola todos os dias, sobre os mesmos motivos de sempre. Juro que tentei ser amigável na maioria das vezes, mas parecia que eles queriam me provocar pra valer. Como se quisessem que eu desistisse de tudo de uma vez.
Devo dizer que aquela demorada semana não terminou nada bem, como se aquele final de ano já estivesse sendo trágico o suficiente...
Estranhamente, na sexta-feira, quase de noite e já no final do expediente, Alberto me chamou no depósito.
- Venha até aqui, preciso que me ajude com um cadeado.
Estava um pouco desconfiado pelo seu tom de voz, mas fui até lá. Quando entrei, Lucíola fechou a porta atrás de mim e a trancou.
- O que foi agora, pessoal? – perguntei. – Que palhaçada é essa?
- Está na hora de se fazer justiça à moda antiga. – disse Alberto.
E Lucíola deu um sincero sorriso.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MENINA DAS ÁRVORES - PARTE VI

Por Ciro M. Costa





Sabem, algumas pessoas devem achar o velório uma coisa curiosa. Enquanto uns sofrem mais, outros menos. Por outro lado, outros não sofrem nada. Pelo contrário, até se divertem um pouco.
Como o velório de meu pai não poderia fugir à regra, as coisas foram assim também. Embora, claro, eu não fosse um dos que se divertiam. Fiquei vendo as crianças brincarem do lado de fora, e lembrei-me de mim mesmo, quando pequeno. A bela idade da vida, quando o pai ainda é um herói. Se algum bandido invadir a casa no meio da noite, ou um monstro sair debaixo da cama, é só chamar que ele vem e resolve tudo. Se você está se afogando na piscina do clube, ele é o primeiro a pular para te tirar de lá. Se algum valentão está te incomodando, lá está ele para botar o pivete pra correr. Se você não tem força para fazer qualquer coisa, já está ele com seus fortes braços ao seu lado.
Embora a gente não tenha se dado muito bem nos últimos meses, não conseguia ficar com raiva dele, naquele momento. Aquele triste momento. Não fiquei aos prantos como minha mãe, mas podem ter certeza que lágrimas escorreram de meu rosto. Uma dor ruim, algo que apertava meu coração durante todo o momento. Magno estava lá, ao meu lado, tentando me animar um pouco, mas a gente sabe é inútil.
Enquanto isso, as crianças continuavam brincando. Acho que o grau de tristeza em um velório é equivalente ao grau que você conhecia e convivia com o falecido. Então por que Lucíola chorava falsamente? Conheço a tristeza muito bem, e aquilo mais parecia um choro de alegria. “Agora o armazém é meu!”, devia estar pensando. E Alberto ali, bem do lado dela. De vez em quando trazia um lanche para a megera, como um cão idiota. Nenhum dos dois sequer veio me dar os pêsames naquele dia. A que ponto chega a maldade e ambição de uma pessoa? Mas não era algo pra se preocupar no momento.
Preocupado estava mesmo com minha mãe. Estava praticamente sozinha agora. Seus pais já haviam falecido. Era filha única. Os primos moravam em cidades distantes. Eu era seu único filho, e ela sabia que um dia me casaria (se Deus quisesse, com Alice!) e iria embora de casa. Apesar de meu pai ser rude comigo, era muito bom pra ela. Era daqueles homens caseiros que ficavam em casa conversando e rindo com a esposa quando possível. Não se pode negar, era um ótimo esposo e companheiro. Nesse momento de tristeza, começo a perceber que foi bom pra mim também. Ser rude fazia parte do meu amadurecimento. Virar um homem de verdade, sem nunca precisar de ninguém, até mesmo para as pequenas coisas. Era isso que meu pai queria que eu fosse, e agradeço por isso.
Bem de longe, ouvi a música Sunday Bloody Sunday(*), do U2. Mais um motivo para essa banda ter marcado minha juventude. Toda vez que a ouço, me lembro daquele dia (que por acaso, era domingo) e sinto essa tristeza. Uma tristeza ruim demais. Queria que meu pai estivesse aqui. Queria ter aproveitado mais o tempo ao seu lado. Queria ter tido coragem de dizer coisas que o deixassem feliz, mesmo que parecesse piegas!
Queria... queria que Alice estivesse lá. Por um momento, pensei tê-la visto sentada em um dos túmulos, bem de longe. Quando chamei Magno para mostrá-la, para ver se não era apenas uma ilusão, ela havia sumido. Estaria eu já imaginando coisas?
Por que ela não estava lá? Já éramos conhecidos (não queria usar a palavra “amigos”) e era o mínimo que podia fazer por mim. Será que ela não ficara sabendo de nada? Acho impossível, uma vez que aquela cidade era pequena demais e as notícias voavam como águia.
Talvez seja por que Sheila estava lá. Sim, minha ex-namorada, estava presente, para demonstrar compaixão e talvez uma possível volta.
- Eu sinto muito por tudo, Joshua. – ela disse.
- Está tudo bem.
- Espero que não esteja se importando com minha presença. Mas é que, apesar de tudo, eu gostava muito de seu pai e ainda tenho muita amizade com sua mãe.
- Não há problema nenhum, Sheila. Pode ficar despreocupada.
- Vejo que está bastante triste, apesar do relacionamento que tinha com seu pai.
- Bem... ele era meu pai, apesar de tudo, não é?
- Sim, claro. Desculpe perguntar, mas por que está sozinho hoje?
- Sozinho? Como assim?
- Pensei que a tal moça das árvores estaria aqui com você hoje.
Claro que Sheila sabia. Cidade pequena.
- Ela se chama Alice. – respondi. – É apenas uma conhecida.
- Não foi o que eu ouvi fa...
- Com licença, Sheila. Preciso tomar um ar. Até mais.
Não adianta. Ex é ex em qualquer lugar e em qualquer situação. Será que algumas pessoas não sabem respeitar os sentimentos das outras, mesmo nos momentos mais difíceis? Será? Será que tive a impressão de ver Lucíola e Alberto sorrindo pra mim?
Precisava tomar uma água. Fui até a cozinha onde estava o café e os biscoitos. Engraçado, que antes de entrar lá, vi uma poça com um líquido vermelho saindo pela porta. Talvez alguém tivesse derramado algo. Um suco talvez!?
Mas não. Eu sabia que era algo mais grave. O cheiro e a sensação ruim não me deixaram imaginar algo diferente. E quando entrei, vi que a coisa era realmente séria.
Minha pobre mãe, havia se suicidado há poucos minutos lá dentro.
Sunday, Bloody Sunday...




(*) Domingo, sangrento domingo